Histórias do Aqueduto

vale_quedutoO Chafariz da Mãe-de-Água, designação original deste espaço, é parte integrante da monumental obra que é o Aqueduto das Águas Livres. Mandado erigir pelo Rei D. João V, a sua construção teve início em 1731 e foi alvo de constantes desentendimentos entre os diferentes engenheiros e arquitectos, poder régio e instituições camarárias e onde não faltaram as abusivas interferências clericais. Foram várias as questões que na época dividiram opiniões, desde alguns aspectos aparentemente mais simples, mas determinantes para a eficácia e perenidade da obra, como a escolha da matéria prima a ser utilizada para as condutas de água (telha, ferro, argamassa, pedra), até princípios de concepção de fundo, dada a existência de diferentes soluções idealizadas para o troço que atravessaria o longo vale da cidade de Lisboa. Hoje, para os portugueses, o Aqueduto das Águas Livres é precisamente a gigantesca arcaria que atravessa o vale de Alcântara, termina no reservatório da Mãe-de-Água das Amoreiras e cuja nascente é algures numa fonte, de nome Água Livre, situada em Caneças (uma distância que perfaz ao todo cerca de 18,5 Km). O Aqueduto é no entanto muito mais que isto. É um complexo conjunto de galerias subterrâneas, arcos e clarabóias ligadas a este tronco principal comum, o chamado Aqueduto Geral, e que se dispersam por toda a cidade com múltiplos chafarizes, outrora importantes pontos de abastecimento de água de Lisboa. Ao todo, a antiga rede do Aqueduto, constava de cerca de 58 Km de rede de condutas de água, 109 arcos, 137 clarabóias e 30 chafarizes. É considerada uma obra única.

amoreiras_aquedutoNa elaboração deste projecto destacaram-se Manuel da Maia (1733), o principal responsável do plano geral da obra com a definição da maioria das suas ramificações e chafarizes, Custódio Vieira (1736) mentor da construção dos arcos de Alcântara, iniciada em 1939, o troço mais aparatoso e dispendioso de todo o Aqueduto e Carlos Mardel (1745), autor de alguns chafarizes e responsável pelo finalizar, em 1748, da construção da Mãe-de-Água das Amoreiras e do Arco, considerado o maior arco em pedra do mundo. Com o terramoto de 1755 Custódio Vieira foi desculpado do despesismo de que fora acusado devido à quantidade de ferro que utilizou para o fortalecimento da estrutura do arco, pois foi obra que provou resistir ao abalo, apesar de se encontrar numa falha sísmica. Outros nomes estiveram depois relacionados com o aumento da rede de distribuição e a construção de pontos de abastecimento de água mais tardios. O Chafariz da Cotovia de Baixo situado na Praça de Alegria é desta época e o seu presumível autor é Reinaldo Manuel dos Santos que desempenhou o cargo de direcção da obra entre 1772 e 1791. Em 1840 este chafariz foi transferido para a Rua da Mãe-de-Água tendo sofrido alterações no projecto de fachada. Desde então passou a designar-se de Chafariz da Mãe-de-Água e é o espaço que temos o prazer de ocupar.

IMG_0600_316Esta sala, em tempos de acesso privado, tem comunicação com o reservatório da Patriarcal no Príncipe Real (cerca de 400 m) e com a Praça da Alegria (cerca de 200 m). O percurso subterrâneo do Aqueduto é todo ele composto por galerias abobadadas com pé direito à escala humana e caleiras em pedra por onde a água corria. O acesso público ao abastecimento da água era feito apenas na rua através das três bicas onde a água corria ininterruptamente; a bica que se encontra no interior do edifício, no piso inferior, era para as águas perdidas. No exterior, no patamar inferior junto aos dois lances de escadas, pode-se observar um depósito também de águas perdidas próprio para os animais saciarem a sede.

Temos o prazer de podermos partilhar convosco este fascinante espaço carregado de dezenas de anos de História. Ele é de todos nós um pouco. À saúde!